Degustação às cegas: Brunellos di Montalcino safra 2002 versus Rossos di Montalcino safras 2005 e 2007, qual o resultado do embate? Será que a máxima “mais vale mais um Rosso di Montalcino bom do que um Brunello ruim” triunfou? Leia e se surpreenda.

Em matéria anterior, afirmei que “mais vale mais um Rosso di Montalcino bom do que um Brunello ruim. Tal máxima [que – na verdade – não é uma fala originalmente minha (ouvi a frase na Itália)] causou repercussão no blog e houve quem duvidasse que algum Rosso di Montalcino se saísse melhor numa degustação do que um Brunello, mesmo que o último fosse de uma qualidade inferior (“um Brunello ruim”).

Dois Rossos e dois Brunellos di Montalcino: os vinhos degustados no confronto

Assim, surgiu a idéia de concretizar (em degustação às cegas) o desafio. Para tanto, com a idéia de conseguir Brunellos di Montalcino com qualidade abaixo da média normal, ficou acertado que somente poderiam participar vinhos da safra 2002, que é notadamente uma safra medíocre (a pior até agora do século XXI) e que, como narrado na matéria anterior, fez com que alguns produtores até abrissem mão de produzir Brunellos de tal colheita (vide o post). Quanto às Rossos di Montalcino, ficou acertado que estes poderiam ter safras de escolha livre, ficando apenas vedado que não seria possível trazer os tops da categoria, ou seja, a escolha de produtor e safra era permitida, tão somente se evitando trazer edições especiais de Rossos para se evitar desigualdade no embate. Seguindo esta bússola, os quatro vinhos degustados (dois Rossos e dois Brunellos) foram os seguintes:

  • Rosso di Montalcino Donatella Cinelli Colombini – safra 2005 (preço praticado no Brasil na faixa de R$ 85-110,00). Vide link do vinho.
  • Rosso di Montalcino Collosorbo – safra 2007 (preço praticado no Brasil na faixa de R$ 95-130,00). Vide link do vinho.
  • Brunello di Montalcino Etruria – safra 2002 (vinho não vendido no Brasil, com preço na faixa de Eu$ 50,00 – cinquenta euros na Itália). Vide link do vinho.
  • Brunello di Montalcino Camigliano – safra 2002 (preço praticado no Brasil na faixa de R$ 160,00 -200,00).  Vide link do vinho.
Contra-rótulo dos vinhos degustados

Registre-se que a degustação foi feita com quatro participantes (Eu, Luciano Robert, Gustavo Mangueira e Max Roland) e com a seguinte metodologia:

(a) todos os vinhos foram postos no decanter para oxigenação no mesmo tempo;

(b) os decanters foram etiquetados com símbolos que correspondiam às garrafas (adesivadas por baixo com o mesmo símbolo). A etiquetagem foi feita por pessoa que não participou da degustação, em separado, e longe da presença dos degustadores;

(c) a ordem de degustação foi sequencial (decidida na hora pelos degustadores), de modo que cada vinho foi apreciado no mesmo momento por todos, cada um em taça separada;

(d) foi permitido, ao final da série (degustação dos quatro vinhos) o retorno a qualquer dos vinhos degustados, complementando-se as taças;

(e) os dados técnicos de cada vinho ficaram disponíveis para cada degustador (sem, contudo, o manuseio das garrafas ou acesso às rolhas);

(f) a ficha de avaliação determinava que o desgustador indicasse se o vinho degustado era um Brunello ou um Rosso  para, após, cravar para cada vinho nota de 2 a5 (cinco para o melhor vinho, decrescendo até dois para o pior – sem possibilidade de notas iguais);

(g) além da entrega das fichas, as notas e considerações sobre cada vinho foram feitas de forma oral por cada degustador;

(h) com as notas e considerações, ao final, foram tirados os adesivos das garrafas obtendo-se o resultado final.

Vinhos no decanter (sem identificação das garrafas por vinhos).

Pois bem, pergunto aos amigos: qual foi o resultado final? Eu respondo: uma vitória triunfante dos Rossos di Montalcino sobre os Brunellos. E mais: dos quatro vinhos degustados, um Brunello (Etruria) e um Rosso (Donatella Cinelli Colombini) foram identificados de forma unânime, ou seja, a tipicidade ficou evidente e não confundiu nenhum dos participantes. Contudo, um Brunello (Camigliano) e um Rosso (Collossorbo) não foram identificados por dois dos degustadores com tais, ocorrendo a inversão de identificação (sinal de que é possível que um bom Rosso di Montalcino pode se passar por um Brunello, se a atenção não estiver redobrada e se o nível do Rosso for muito bom). Para finalizar, na soma das notas (valendo aqui a qualidade do vinho e não sua identificação) os Rossos tiveram avaliações surpreendentemente acima dos Brunellos, confira-se as notas finais:

  • Rosso di Montalcino Donatella Cinelli Colombini (2005): 18 pontos
  • Rosso di Montalcino Collosorbo (2007): 16 pontos
  • Brunello di Montalcino Etruria (2002): 11 pontos
  • Brunello di Montalcino Camigliano (2002): 12 pontos

Não tenho dúvidas que o ruim desempenho dos Brunellos está ligado a péssima safra de 2002 e a escolha dos Rossos di Montalcino de safras boas e mais quentes, fazendo com que estes se apresentassem bem e numa escala evolutiva interessante. Por isso, não parece ter sido por acaso o sucesso do Rosso di Montalcino da safra 2005.

Assim, a máxima (“mais vale mais um Rosso di Montalcino bom do que um Brunello ruim”) se demonstrou verdadeira no resultado do embate, ficando a impressão de que os Brunellos da safra 2002, de fato, não são superiores aos bons Rossos di Montalcino de safras mais felizes, notadamente se produzidos por bons produtores (como foi o caso dos vinhos examinados).

No entanto, o resultado (de certa forma surpreendente pelos números finais – dada a distância dos Rossos para os Brunellos) acabou por gerar a novo desafio: Será possível o mesmo confronto se a safra for livre para os Brunellos? Haverá espaço para os Rossos di Montalcino disputarem se a safra for liberada para todos os vinhos? Em outras palavras, será que diminuindo a vantagem dos Rossos [obrigatoriedade da safra 2002 (ou seja, uma bem ruim) para os Brunellos], os Rossos di Montalcino terão o mesmo desempenho vencedor? Daqui duas semana faremos o novo desafio e o resultado será publicado no blog. Confesso que fiquei curioso (e emplogado) com a revanche proposta pelo degustador Max Roland (imediatamente aceita por todos os demais participantes).

E para finalizar, faço uma indagação: olhando a foto abaixo, você consegue dizer com segurança se o vinho que está na taça (participante do desafio) é um Brunello ou um Rosso di Montalcino? Pense bem, pois há chance de você errar….

Brunello ou Rosso?

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12 Comentários

Arquivado em Dicas de Vinhos

12 Respostas para “Degustação às cegas: Brunellos di Montalcino safra 2002 versus Rossos di Montalcino safras 2005 e 2007, qual o resultado do embate? Será que a máxima “mais vale mais um Rosso di Montalcino bom do que um Brunello ruim” triunfou? Leia e se surpreenda.

  1. Gustavo Bumachar

    Mazza , ficou muito boa a matéria , conseguiu mostrar com detalhes a experiência do desafio , parabéns ! Vamos para outro conforme combinado e depois vc repete a dose no blog , abraço

  2. Gustavo, eu estou bem curisoso, pois a degustação (apesar de confirmar a máxima) me deixou com a “pulga atrás da orelha”. abraços, Mazzei

  3. Gilson

    Rodrigo, pense numa outra degustação conferir safras pares!
    A Safra de 2002 foi um fiasco, certo? Mas, 2005 e 2007 foram safras excelentes!
    O risco de proximidade é muito alto nesse caso, concorda?
    Mas, parabéns! Ficou show a matéria…
    Tamos aí…
    abs!

    • Gilson, esta degustação foi extrema, pois trabalhamos com – com olhos no século XXI – a pior safra de Montalcino para os Brunellos (2002) e duas (2005 e 2007) razoavelmente quentes (e que por isso, possuem Rossos mais prontos para hoje). Na próxima degustação as safras vão estar totalmente liberadas, seja para Rosso, seja para Brunello (só com restrição de vinhos tops´s). Eu, particularente, sou fã das safras 2004 e 2006 (embora os vinhos – tanto o Rosso qto o Brunello – estão muito longe de estarem no auge – muita estrutura, com a curva ainda subindo), Já separei meu vinho para o novo embate, mas nem imagino o queos meus amigos vão trazer. Vai ser interessante… e talvez, supreendente. Abração, Rodrigo. Obs.: o que acha de uma degustação só de safras pares como requisito. Se achar interessante eu tento emplacar como terceira prova. O que acha?

  4. Caro Rodrigo,
    Destes eu só apreciei (se dá para dizer “apreciar”) o Camigliano 2002. Realmente é uma lástima. Mas eu concordo que bons Rossos podem bater Brunellos, mesmo da mesma safra. Exemplos são os Rosso de Montalcino de Siro Pacenti e Andrea Costanti, que a meu ver são muito melhores que muitos Brunellos encontrados no mercado (que aliás, está cheio de Brunellos fajutos!). Assim, principalmente no caso dos Brunellos, o produtor conta muito.
    Grande abraço,
    Flavio

    • Caro Flávio, acho que agora – na próxima degustação – a diferença vai ser menor e o previsível deve acontecer (Brunello na cabeça), pois as safras vão estar liberadas para todos os vinhos, só não vale levar os tops dos tops (pois ai o nível eleva agudamente para algumas garrafas). Se alguem levar um Brunelo ruim, os Rossos tem chance real, mas se todos os Brunellos forem de bons produtores, é muito possível que não haja espaço para os Rossos. Bom vamos ver o que acontece. Eu adoro os Brunellos do Siro Pacenti e do o Andrea Constanti, mas só bebi o Rosso do primeiro (na Itália, acho que paguei 14 ou 16 euros – safra 2001). Obrigado pela visita e, mais uma vez, parabéns pelo seu blog (vinhobao.blogspot.com) que está cada dia mais legal.
      abraços, Rodrigo

      • Caro Rodrigo,
        Estou aguardando a postagem do próximo embate! E obviamente vou ficar salivando aqui, pois adoro os Brunellos… rs.
        Sabe que tive o prazer de apreciar alguns Rossos do Pacenti (também de 2001) e os maravilhosos Brunellos de 1998 e 2000. Bem, todos deliciosos e adquiridos em bota-fora da Mistral, quando esta parou de importar estes vinhos, infelizmente. Não me perdoo até hoje de ter deixado escapar um Brunello Siro Pacenti de 2001, que ficou dando sopa no site da Mistral por mais de uma semana por 150 reais… Que mancada!
        Mudando de assunto, suas postagens estão ficando cada vez mais quentes e comentadas! Parabéns! E obrigado pela referência ao Vinhobao. É sempre um prazer ter sua visita lá.
        Grande abraço,
        Flavio

      • Flávio, postagem quente saiu agora sobre a moqueca capixaba. rsrsrsr Vc que é mineiro, deve gostar da nossa moqueca. Agora, que mancada, deixou passar um vinhaço….. Pô, doeu em mim…Se puder, experimente o Rosso da Collosorbo,,,, com mais ou menos uns R$ 100,00, vc vai ter um vinho de “prima”. Abraços etílicos, Rodrigo

  5. MAXWEL SALAZAR BOGHI

    Rodrigo, confesso que tenho que tirar o chapeu, apesar de ser um
    apaixonado pelos brunellos, o que levei, foi o que dei a pior nota.
    vai ter troco no proximo embate. nao esqueça as garrafas tem que
    estar totalmente isoladas com papel aluminio.
    abraços
    MAX ROLAND (hshshshs)

    • Caro Max Roland, você não tem que dar o braço a torcer, pois o resultado final (as diferenças entre os Rossos e os Brunello) acabarm supreendendo todos. Pode deixar que esta vez será mais que às cegas, será no escuro total. rsrsrsr
      Vamos ve se fazemos semana próxima.
      Abraços, Rodrigo

  6. Já tive a oportunidade de experimentar o Rosso da Cinneli Colombini 2005 e realmente é um vinho muito, mas muito bom. O resultado não me surpreendeu embora eu não tenha conhecimento dos outros vinhos desgustados. Pena que não tenho mais encontrado este vinho aqui no Brasil. Se tiverem alguma dica de onde adquiri-lo agradeço.
    Abraço e parabéns pela matéria.
    Mário.

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